Sempre evitei coisas menos agradáveis aqui neste blog, não por querer passar uma falsa mensagem do que por aqui se passa, mas sim porque sempre entendi este cantinho como algo que escrevo para a minha filha, onde tento partilhar as suas conquistas e alguns momentos da nossa vida. Embora tenha pensado muitas vezes em privatização, nunca o fiz pois sempre entendi que poderia ajudar alguém. No dia em que soube do problema da Laura senti necessidade de encontrar um caso real que me fizesse acreditar que tudo correria bem, e foi algo que não consegui.
Hoje senti necessidade de escrever algo mais, senti necessidade de desabafar sobre algo que me assombra desde do dia que a minha princesa nasceu. Aquele dia que se define no dia mais feliz das nossas vidas, para mim ficou também marcado como um dos piores pesadelos. Naquele dia foi-me "roubada" a felicidade de viver as primeiras horas da minha filha, naquele dia foi "roubada" a felicidade que o Pai poderia estar a sentir junto da sua filha, no entanto passou o dia entre maternidade e pediátrico, tentando da melhor forma sossegar a Mãe e acompanhar o seu bem mais precioso que travava a sua primeira batalha. Dei colo à minha filha pela 1ª vez no dia seguinte ao seu nascimento, mais de 24 horas após o seu nascimento senti o seu cheiro, toquei a sua pele e chorei de emoção, de medo, de alívio, mas acima de tudo de enorme felicidade por tê-la finalmente comigo. Recordo-me das horas que passei, dos dias, em que olhava para as outras mães que comigo partilhavam o quarto, para a sua felicidade com os seus filhos e angústia que sentia em não poder ter a minha filha assim junto de mim... Foi violento, nunca falei sobre isto, nunca falei na dor que senti, no desespero, na falta de informação, de acompanhamento...
Sim, estava suficientemente preparada para enfrentar a fenda labio-palatina da minha princesa, na minha cabeça ecoavam as palavras do obstetra , "Poderá ter um bebé feio, mas é algo que se corrige, poderia ser muito lindo e ter uma doença para toda a via!". Parece cruel, mas não, de certa forma ajuda-nos a enfrentar a situação e quando vi a minha filha pela primeira vez, vi também para mim o bebé mais bonito do mundo e amei-a ainda mais por isso. Infelizmente a sociedade em que vivemos é cruel, vive da aparência e muitas vezes temos de lidar com a diferença, sabendo apenas lidar com a perfeição.
Foram diversas batalhas que enfrentamos e teremos ainda de enfrentar, mas uma a uma vamos conseguindo ultrapassar, e a força renasce a cada sorriso da nossa filha.
Mas não estava preparada para ter de enfrentar outros problemas, causados por alguém que em segundos destrói todos os sonhos de uma mãe com o nascimento do seu primeiro filho! Não poderei deixar passar, tenho de lutar por algo que garanta que, no futuro, a minha filha não tenha qualquer sequela, que se infelizmente tiver, terá o tratamento adequado a essa situação. Tenho de o fazer por ela, porque ninguém apaga o sofrimento e a incerteza que aquele "infeliz acontecimento" trouxe às nossas vidas, mas não posso cruzar os braços e deixar ficar impune alguém que colocou em risco a minha filha, deixando mesmo sequelas para toda a vida, mesmo que não se verifique o pior quadro apontado para esta situação, a "marca" física e psicológica está lá e essa nem o tempo apagará. Mas dói, dói ouvir determinadas palavras da outra parte minimizando a situação, tentando procurar a sua defesa sem nunca ter tido uma palavra a quem realmente deveria.
O texto é longo, pode não fazer muito sentido, mas também não quero expor na totalidade, pois decorre onde deve decorrer, onde irá decorrer talvez por muitos anos, e onde por diversas vezes, como ontem, terei de recordar aquele dia, aquele sofrimento e sentirei novamente tristeza e uma imensa revolta pela forma como tudo aconteceu.